Colégio Castella - Episódio 1
Cláudio Soares chega no Colégio Castella e fica olhando o prédio de três andares, paredes de tijolos vermelhos com os rejuntes pintados de branco, jardins por todos os lados e alguns jovens conversando do lado de fora. Ele anda carregando duas malas e sobe uma escada de dez degraus. Abre a porta...
CENA 1: NO SAGUÃO
Cláudio logo fica parado pois um faxineiro estava passando o pano. Mas ele olhou para o futuro professor e disse:
- Está procurando alguém?
- Onde fica a diretoria?
- No segundo andar, primeira porta à esquerda. É um novo professor?
- Parece que ficarei por aqui, sim.
- Seja bem-vindo. Me chamo Severino.
Os dois apertaram as mãos. Mas Claúdio corrigiu mentalmente a frase de Severino, "Chamo-me Severino"; mas não queria dizer em voz alta para não ofender logo de cara o novo amigo.
Ao seguir as instruções de Severino, Cláudio chegou à Diretoria. Ele percebeu durante o caminho como tudo era limpo e organizado, bem construído, mobiliado e arrumado. Os jovens que passavam por ele estavam bem trajados em uniformes vermelhos.
CENA 2: NA DIRETORIA
O Diretor Maurício estava sentado em sua escrivaninha anotando recomendações quando Cláudio bate na porta.
- Pode entrar - disse ele.
Cláudio entrou, meio atrapalhado com as malas. Deixou-as num canto, disse bom-dia para o diretor e sentou-se na cadeira que estava à sua frente.
Maurício olhou para o novo professor. Ele tinha boa aparência, cabelos lisos e olhos cor-de-mel. Usava óculos, mas Maurício, sem saber porquê, pensou que ele poderia enxergar sem eles.
- Então você está aqui. Sabe que aqui no Colégio Castella não somos iguais a essas escolinhas que vocês costumam licenciar. Aqui nós temos classe! E classe não se aprende de uma hora para outra. Você terá que se ajustar às nossas normas, ou estará fora. Não se for da minha vontade, lógico. Acontece que nossos alunos são muito exigentes. Eles estão pagando por uma educação melhor. Portanto, Sr. Soares, dê o seu melhor.
- Certamente que darei, senhor. Como é o sistema, aqui?
- É o seguinte - disse ele, pegando em alguns papéis - nesta escola temos duas turmas. A dos meninos, com vinte, e a das meninas, também com vinte. Está para chegar também mais um aluno. O senhor dará aula de Literatura para as moças e Redação para os rapazes. O nosso último professor casou e não pôde mais morar aqui. Mas acredito que você pretende ficar, certo? - perguntou o diretor, olhando para as malas mal-colocadas no canto da sala.
Claúdio achou prudente não responder, pois poderia perder a paciência logo no primeiro dia; isso seria ruim. Agradeceu e saiu. Ao abrir a porta, deu de cara com um jovem baixo que ia bater na porta.
CENA 3: AS BOAS-VINDAS
Cláudio foi andando pelos corredores sempre com suas malas. Percebeu que os jovens já não estavam mais lá. Concluiu que agora eles devem estar estudando.
Finalmente, chegou no seu quarto, no terceiro andar, onde ficava os dormitórios de todos. Não era necessáriamente o Plazza Hotel, mas Cláudio estava satisfeito. Guardou suas roupas no guarda-roupa com esmero e preparou-se para as aulas que daria amanhâ.
Quando deu seis horas da noite, ele desceu para o refeitório. Mas não o achou de imediato, por isso parou uma garota que tinha vários livros na mão.
- Com licença, moça, onde fica o refeitório?
A moça demorou-se em olhar para ele e respondeu:
- Continue seguindo em frente, senhor...
- Obrigado.
Camélia, a moça, nem conseguiu responder de volta. Correu para o grupo mais próximo e comentou:
- Meninas, já viram quem está no colégio?
- Sei - respondeu Marina - um jovem baixo de óculos.
- Não, eu me refiro ao nosso provável professor postiço. Vocês já o viram?
- Ninguém o viu ainda, só amanhã - respondeu friamente Amanda, a mais inteligente entre as meninas, talvez de todo o Colégio Castella.
- Vocês estão perdendo - retrucou Camélia - na hora do jantar, dêem uma olhada na pessoa nova, exceto o feioso de óculos.
Enquanto isso, Cláudio se apresentava aos outros professores que já estavam no refeitório.
- E então, o que achou da escola? - perguntou Alex, o professor de Educação Física.
- Muito limpa e organizada.
- E quanto as regras? Promete dar conta? - desta vez quem perguntou foi Caio, o professor de Matemática.
- Que regras?
- Ele ainda não as recebeu, de fato - disse Beatriz, a professora de Biologia - mas assim que estiver jantando, Theóphilo vai passar a lista das regras debaixo de sua porta.
- São muitas?
- Não, mas o chato é cumpri-las - disse Beatriz.
Caio arrematou:
- É por isso que o outro professor deu o fora.
- O diretor disse que ele foi embora porque casou - disse Cláudio.
Os seus colegas de trabalho deram uma risada discreta.
- É claro que Maurício nunca irá dizer que foi duro demais com nosso pobre professor. Mas tudo bem - disse Alex - não deixe que ele o amedronte. Bem-vindo, Cláudio.
A cozinheira Gizelda apareceu do outro lado do refetório com uma grande panela de arroz à grega.
- Bem - disse Beatriz - vamos logo comer!
CENA 5: MENINAS NADA DISCRETAS
Enquanto isso, todos os alunos entraram no refeitório. Em instantes, todos arranjaram seus lugares e começaram a jantar. Além do arroz, havia bife grelhado, salada de rúcula (evitada pela maioria dos rapazes) e lasanha de frango. Cláudio comeu até se saciar. Quando ele terminava de beber seu suco e os outros professores sairam da mesa, as nossas meninas conhecidas se aproximavam dele:
- Ai, meu Deus, Camélia, você tinha razão!
- Parece ator de novela mexicana! - disse Ana Márcia.
- Eu não disse? - perguntou Camélia - e vocês estavam olhando o baixote de óculos.
O problema é que as meninas não mantinham a devida discrição e Claúdio ouviu mais ou menos a conversa das meninas.
- Olá, professor. Me chamo Amanda e em nome de todas as meninas quero desejas as melhores boas-vindas ao senhor.
As outras cortaram Amanda e bagunçaram tudo:
- E eu me chamo Camélia!
- E eu, Ana Márcia!
- E eu, Marina!
- Ei, gente, eu ainda estava falando! - gritou Amanda.
- Ah! Parecia discurso de deputada estadual! - gozou Ana Márcia.
Outros alunos que ainda estavam no refeitório começaram a rir, até mesmo Gizelda, que estava na pia lavando as vasilhas, ouviu a confusão.
- Muito bem, meninas - disse Cláudio - foi um prazer conhecê-las e espero que estejam prontas para a aula de amanhã.
- Estaremos "preparadas" - disse Marina, pensando besteira.
Os rapazes comentavam entre si:
- Que cambada de vadias - exclamou Felipe.
- Só porque "acham" o cara bonito. O amor é cego mesmo - brincou Luís, fazendo os outros rir.
- Será que ele é boa gente? - perguntou Evandro - já se imaginou se ele for gentil com elas e horrível com a gente?
- No mínimo. Conheço esses caras - disse Felipe, observando Cláudio sair - agora ele deve estar se achando o gostosão. Safado.
- Mas seremos nós quem iremos complicar a vida dele - disse Léo - ele verá que conosco não tem quem nos trate mal por causa de saias curtas.
E para selar o plano todos brindaram e beberam o último gole de refrigerante.
CENA 6:AS REGRAS
Cláudio, depois de sair daquele terreno hostil, subiu para seu quarto. Quando começou a entrar, sentiu-se pisando num papel, obviamente as regras que Theóphilo deixara.
- Esse Theóphilo só pode estar brincando! - exclamou Cláudio, quando acendeu a luz e viu que o "papel" era um documento de cinco folhas, escritas na frente e no verso, cheias de normas ditadas pelo Theóphilo, o coodernador e vice-diretor do Colégio Castella, reconhecido e assinado pelo diretor-chefe Maurício Lima de Assis.
Cláudio tirou a camisa, os sapatos e as meias e deitou-se na cama, e começou a ler as regras. Mas elas foram escritas de modo bem detalhado e chato, e nosso professor começou a dar sono. Largou as folhas de lado e se ajeitou nas cobertas para dormir, depois de apagar a luz.
CENA 7: O NOVATO
Enquanto isso, não se esqueçam de que as garotas mencionavam um novo aluno, baixo e de óculos. Esse aluno se chamava Jonas e estava se instalando em seu quarto. Ele ia dividir o quarto com Evandro, um dos rapazes que queria ver se o professor Cláudio estava ou não se aproveitando das meninas. Ele estava preocupado porque ele gostava da Amanda, e não gostava de pensar que Amanda gostasse mais do professor do que ele. Por isso nem falou muito com seu novo parceiro de quarto, que chegou e deixou as malas no chão.
- Em qual cama você dorme? - perguntou Jonas, procurando ser gentil.
- A da esquerda - disse Evandro, sentado numa cadeira, tentando ler um livro, mas com a mente distraída em vocês sabem quem.
Jonas desfez as malas e notou uma roupa estranha no guarda-roupa.
- O que é isto? - perguntou ele, e, puxando para fora, viu um pijama de uma horrível cor verde.
- Já sei, é horrível. Mas é o pijama oficial da escola. Temos de usá-lo. É a norma.
- Não está escrito na folha que me deram.
- Vai se acostumando, meu chapa. Essas seriam regras da escolinha pública de onde veio. Aqui é diferente.
Enquanto isso os outros estavam conversando na sala. Os dormitórios dos alunos eram divididos em alas; cada ala havia três quartos com duas camas cada. Havia uma sala onde os alunos podiam ver TV e usar o computador, mas a maioria, lógico, tinha laptops. E nesta sala estavam Felipe, Léo, Luís e Augusto.
- Aquele guri que chegou em nada combina com a gente - disse Augusto.
- E se ele for esperto - disse Léo - deve sentir isso.
- As gatas nos querem - opinou Luís - mas assim que ele pisou nesta escola as minas começaram a rir. Entre elas ele é "o baixinho de óculos" - risadas dos quatro, não muito altas.
- Quero ver ele jogando bola na Educação Física. Alex não vai ter pena dele.
- Muito menos a gente - arrematou Luís.
- Agora outro que temos de ter cuidado é o novo professor - disse Léo.
- Ele que espere. Se acha que vou escrever igual à Amanda está errado.
- Escrever?
- Eu falei um pouco com o diretor Maurício. Ele vai dar aula de Literatura pras meninas, mas Redação pra gente.
- P---, quem deve gostar disso é o Tobias! - exclamou Augusto.
- E aquele manézinho também... qual é mesmo o nome dele? - perguntou Leopoldo, fazendo seus amigos cair na risada mais uma vez.
FIM DO PRIMEIRO EPISÓDIO

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